SOBRE BUGRES E TESOUROS
Bugres (para quem não sabe) são, segundo o dicionário, índios mestiços e nômades.
Quando meu pai nasceu, minha avó rejeitou-o e entregou-o (deu-o) a um casal de bugres. Ao me pegar, ainda menino, a “vasculhar” minhas origens, me vi diante de um guri “neto” de um bugre....honesto...trabalhador....asseado....brilhante .
Longe de “rejeitá-lo” eu o amei. Gostava de estar junto dele. Era “de respeito” (como me ensinou). Nunca nas redondezas desabonaram seu nome.
Baixo, um metro e cinqüenta quando muito. Vestia sempre camisas brancas da cor clara dos sinceros e bombachas pretas de bolsos fundos que meus olhos “vasculhavam” quando ele chegava do “bolicho” (bar, boteco, venda), à procura de balas de caramelo ou banana.
Nos fundões dos matos do lugar onde morava mantinha sempre muitas colméias e seus enxames de abelhas “aflicanas” como ele dizia (descobri muito mais tarde que ele referia-se as abelhas africanas).
No crepúsculo de alguma tarde a cada seis ou sete meses eu o pegava a remexer em seus apetrechos.
Meus olhos brilhavam e vinha junto a pergunta.
___Ei vô, vamos melar? (Eu sabia dos tesouros que ele escondia)
Ele nada falava.
Depois de tudo arrumado. Segurava-me pela mão. Em silêncio caminhávamos até os matos. Fazia-me esperar sentado em cima de um cupinzeiro abandonado de onde eu o via se dirigir as colméias remoendo palavras baixinho.
Eu pensava. Uma “oração”, talvez..... Um “pedido” aos deuses..... Um “lembrete” a ele mesmo para não esquecer que não era nada diante da natureza.....Uma “razão” para misturar-se a insetos de picadas doloridas e latejantes.
Nunca soube o que ele dizia. Sempre quis saber do que ele falava
Ali sentado. Guri de pés descalços e calção curto. Eu olhava....salivava....esperava.
Vez por outra o via desaparecer nas nuvens de abelhas sem máscara, macacão, luvas, sem nada
Passados instantes de angústia para mim ele reaparecia trazendo nas mãos morenas e calejadas um pedaço do ultimo e mais novo favo, carregado do mais doce e puro mel.
Quando me entregava eram seus olhos humildes que brilhavam....
Ninguém pode imaginar como era “doce” este momento...Ninguém sabe para que “mundos” eu me transportava...Ninguém entenderá jamais que forças me tiravam de cima do cupinzeiro em um salto fazendo-me aterrissar a sua frente de mãos espalmadas e pedintes. Se soubesse o que sei hoje saberia naquele momento o que sentem os deuses alimentados com mel e néctar
Entregava-me o “tesouro” e eu fazia jus ao porque chamam os meninos de piás. Se me visse em um espelho certamente veria um guri lambuzado de mel pelo rosto inteiro. E no semblante sério daquele bugre bondoso eu via formar-se uma nesga de riso que eu nunca esqueci.
E agora, depois que o tempo passou na correria desta cidade medonha vez por outra me deparo com bugres e suas crias atirados pelas calçadas a vender suas bugigangas...e...como um “pagamento”.... um “tributo”.... uma “devoção”.... ofereço-lhes meu riso tímido....meu olá...meu olhar tristonho ...Reavivo minhas saudades... minhas indagações.
Os vejo...os sinto...Vasculho suas vidas malditas...Busco minhas lembranças...Rememoro minha infância...mas...em nenhum deles nunca mais encontrei nada que se compare “aquele doce favo de mel oferecido na ponta de um riso sincero”.
Ao meu avô que amei.
(Dirceu Fernandes da Silva)
5 de abr. de 2010
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