2 de set. de 2013



As Paranóias da noite...


Não é porque ele foi grosseiro comigo que eu tinha que ser grosseira com ele também, mas fiz, está feito, agora acabou, solidão pra sempre é o que me espera, assim como aquela dívida maldita que só aumenta, meus credores não têm nenhuma compaixão, vou ter que vender meu carro para pagá-la, e essa tosse insistente só pode significar que estou condenada, sem falar que minha filha ainda não voltou da festa, pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, como está quente nesse quarto, eu nunca mais vou conseguir dormir, nunca mais, vou acordar com olheiras até o queixo, sou uma miserável que... zzzzzz.
E então você acorda, abre as cortinas da janela, e recebe um telefonema do seu amor reconhecendo que andou abusando da sua paciência e que está morrendo de saudades, e entra um trabalho freelancer que ajudará a pagar a conta atrasada, e a tosse passa com Melagrião, e a filha está dormindo feito um anjo no quarto ao lado, e as suas olheiras estão aparentes mesmo, mas nada que um corretivo não disfarce. Olhe só, suas preocupações ficaram desse tamanhozinho, de quem foi a mágica?
Do primeiro raio de sol. Durante o dia, nossa cabeça pensa melhor e as soluções aparecem no decorrer das horas. A mente ajusta o foco e não dá trela a fantasmas. Já a madrugada não conhece a palavra sanidade.
A escuridão e o silêncio transformam pequenas chateações em dramas diabólicos, e a gente cai nessa cilada, achando mesmo que estamos lidando com o pior da vida. Mas que vida? Hipercansados, ansiosos, deprimidos, paranoicos, isso é vida? A insônia desperta em nós a morte, isso sim. Ficamos todos ferrados não pela falta de sono, mas pelo excesso de dilemas. Como disse Dostoievski, ser extremamente consciente é uma doença. A gente morre por pensar demais. E pensar é só o que nos resta durante uma insônia.
Mas é possível controlar esses pensamentos malditos.
Em vez de permitir que o cérebro maximize nossos problemas, o melhor seria transformar nossa miséria noturna em algo produtivo. Porém, nem todos conseguem levantar da cama – ainda mais no inverno – a fim de guerrear com seus demônios. Até porque sempre há a esperança de se conseguir dormir pelo menos por uma ou duas horas, o que não acontecerá no caso de acendermos as luzes para pintarmos quadros, escrevermos poemas, fritarmos omeletes, cortarmos o próprio cabelo – ai, não corte o cabelo às quatro da manhã, vá por mim.
Posso fazer uma sugestão? Sem precisar levantar, sem acender a luz, jogue “stop” mentalmente com você mesmo. Países: a, Alemanha; b, Bélgica; c, Canadá; d, Dinamarca... Há grande chance de, antes de chegar no p, Portugal, você já ter adormecido. Se não, siga com o jogo, fazendo seu a-b-c para títulos de livros, comidas, profissões, ruas da cidade. O truque é simples: trocar de preocupação. Ou você prefere continuar fazendo o a-b-c das doenças que poderá contrair ou das pessoas a quem já magoou?
Parece bobagem, e é, mas quase sempre funciona. Jogue “stop” noturno com você mesmo, e stop a insônia. 

(Martha Medeiros)
 

4 de ago. de 2013



O tempo passa, o tempo voa...

 

Há 25 séculos Heráclito, "o obscuro”, dizia que um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio. “Tudo flui”, ensinava. E há 25 anos algum gênio da publicidade dizia que o tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindus continua numa boa. Duas ponderações sobre a transitoriedade da vida. Heráclito afirmava que o mundo está mudando sempre e que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. O publicitário concordava, com uma ressalva: menos a Poupança Bamerindus. A Poupança Bamerindus era uma garantia contra a efemeridade da vida. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo, com exceção da Poupança Bamerindus, essa instituição sólida, imutável, eterna.
O tempo passou, o tempo voou, e o que ficou provado? Que Heráclito tinha razão. O Bamerindus extinguiu-se, como o pássaro Dodô, e sua poupança não continuou numa boa. Só que o publicitário, mesmo errado, era de fato genial, tanto que até hoje lembro do bordão criado por ele.
O que ficou do Bamerindus, do jingle e de Heráclito é que eles aparentemente passaram, mas não. Eles fazem parte de mim, da carga de memórias deixada pelo meu passado. E de outras tantas pessoas também. Eis o busílis. O passado existe; o futuro, não. Os sensatos aconselham: “Pense no futuro". O futuro é o tempo dos sensatos. Mas o futuro é uma abstração. Você fica esperando pelo futuro, e ele não chega jamais. Nunca alguém algum dia disse: “Agora, que estou vivendo no futuro, estou bem”. Nunca. Nunca alguém viveu no futuro.
No passado, sim. Todas as pessoas do mundo viveram no passado. Você agora, no presente, está vivendo do que foi o seu passado. Está sentado sobre ele. O passado é o cimento do seu presente.
A cada dia você constrói o seu passado. O que você está fazendo agora, da maneira como está fazendo, servirá mais tarde como referência. Os outros, quando olharem para você, vão olhar para o seu passado. Para o que significou o seu passado. E você mesmo, ao planejar o que vai fazer e como vai fazer, terá como medida o seu passado.
Faça as coisas benfeitas, portanto, e construa agora um passado glorioso para você. Mesmo que você queira mudar. Porque qualquer mudança, por radical que seja, é baseada em algo que existe concretamente, e só o passado existe concretamente.
Logo, não vou pensar no futuro intangível e inatingível. Vou me alegrar agora com o que tenho agora. Vou sorver a vida neste exato momento. Vou recorrer a outro pedaço do meu passado, formado por uma frase do poeta Horácio, “o orelhudo”, que viveu 500 anos depois de Heráclito e 2 mil anos antes do publicitário do Bamerindus: “Carpe Diem”, ele disse. Aproveite o dia. É o que temos de fazer, eu e você. Vamos aproveitar esse dia, porque ele vai ser depositado na conta do nosso passado. Nós ainda vamos nos lembrar desse dia, amanhã.
(David Coimbra)

24 de jun. de 2013

As chatonildas...


 
Sou gamada pelos filmes Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol. Ambos, na época, me inspiraram crônicas, e não seria diferente agora com a obra que, acho eu, encerra a trilogia, Antes da Meia-Noite, a maior DR cinematográfica recente. Não tão bom quanto os filmes anteriores, mas bom também, agora o casal protagonista, Jesse e Celine, enfrenta uma crise conjugal clássica.
Qualquer pessoa que tenha vivido uma relação de mais de um ano - vá lá, dois anos - já protagonizou cenas quase idênticas. Somos todos iguais, o que me estarrece, visto que a charmosa Celine, que conquistou aquele guapo no primeiro filme da série e o fez perder o rumo de casa no segundo, se transformou na Maior Chata da História, assim mesmo, com maiúsculas. E o que é pior: essa Maior Chata da História, ai, é meio parecidinha conosco.
Celine pira. Faz perguntas inibidoras para o marido, numa tentativa de encurralá-lo nas próprias palavras. Busca sempre alguma entrelinha por trás do que o coitado do marido ousou falar. Tira conclusões estapafúrdias pela própria cabeça, faz drama por qualquer bobagem, não sabe se vai ou se fica. É o capeta travestido de mulher. Se você já assistiu ao filme, duvido que não tenha se identificado com pelo menos 10 minutos da histrionice da personagem, e estou sendo generosa, poderia tranquilamente falar aqui em identificação de meia-hora - ainda sendo generosa.
Não que os homens sejam santos. Eles azucrinam. São os garotos de 12 anos que não crescem, como admitiu semana passada o David Coimbra, que sabe tudo. Ainda assim, nada justifica nossa aporrinhação. Mulher é bicho tremendamente chato. Umas mais, outras menos. Rogo a Deus que eu esteja entre as menos. Por via das dúvidas, não perguntem aos meus ex.
O que nos absolve (um pouco) é que a intenção é das melhores: só queremos limpar a área, clarear os problemas. Falamos, falamos, falamos, mas no fundo sonhamos com a paz do entendimento. Por isso, não nos cobrem, não nos façam de tolas, não nos sobrecarreguem: entendam que a paciência esgotou, não somos as mães universais, as eternas boazinhas e compreensivas, isso já deu. Mas precisamos transmitir esse nosso “deu” com menos verborragia, concordo.
Pra não terminar essa crônica ressaltando apenas a chatice feminina, destaco uma frase do filme que aponta uma saída. Diz um personagem secundário: “o amor que sentimos por alguém não é o mais importante, o que interessa é o amor que sentimos pela vida”. Sábias palavras. Se o casal concorda que a vida é breve e merece ser apreciada com alegria e generosidade, sem valorização das encrencas, sem perpetuar traumas de infância, sem pensamentos estreitos, sem nenhuma espécie de rigidez, a relação poderá vir a ser um passeio no campo. Ame a vida, e meio caminho andado para um romance leve.
Mas, claro, ajudará muito se nós, gurias, controlarmos a nossa doidice nata.
(Martha Medeiros)

26 de mai. de 2013


A gueparda...


Por que tem tanto documentário sobre os suricatos na TV? Não entendo a popularidade do suricato. Os felinos, sim, esses merecem todos os filmes que estrelam. São os mais belos animais do planeta. Os cavalos têm nobreza. Os pássaros, graça. Os peixes, todas as cores. Os elefantes são imponentes. Mas nenhum deles tem a sensualidade elástica dos felinos. Não é à toa que a mulher mais linda é chamada de gata.
Então, paraliso diante do aparelho quando passa um filme sobre os grandes gatos. Foi assim que, dia desses, afundei na poltrona quando vi que seria exibido um documentário sobre o reino dos felinos ou o mundo deles, coisa que o valha.
A principal protagonista era uma mãe gueparda. Os guepardos são os mais velozes animais sobre a Terra, alcançam 110 km/h. Essa gueparda do filme teve cinco filhotes. Andava com eles pela savana em busca de sustento, como tantas mães solteiras andam pelo cimento da cidade. Num desses momentos de caça à comida, os filhotes se desgarraram. A noite caía sobre a África, e ela se desesperou. Chamou os rebentos com miados parecidos com latidos, conseguiu reunir três deles, mas, desgraça!, outros dois foram levados por um bando de repugnantes hienas que por ali rondavam. As hienas assemelham-se aos cães, mas na verdade também são felinos, sabia? São.
Ao alvorecer, a mãe gueparda subiu num pequeno monte para tentar avistar os filhotes desaparecidos, enquanto os outros três brincavam indiferentes sobre suas costas. Miava, a coitada, miava, miava, e nada. Estavam perdidos para sempre.
Seguiu seu caminho até que, lá adiante, em meio à vegetação amarelecida pelo sol, deparou com a visão horrenda: a morte se aproximava sob a forma de três irmãos guepardos desconhecidos. Não existe corporativismo entre os guepardos. Os machos adultos, quando avistam filhotes de outros machos, costumam devorá-los. A mãe sabia disso, sabia que não tinha chance contra os três, mas os esperou bravamente. E os enfrentou com a coragem das mães. Um a mordia numa pata, outro no flanco, o terceiro tentava lhe dilacerar o pescoço, mas ela resistia. Com as unhas afiadas cortando feito giletes, com os dentes pontiagudos à mostra, com rosnados de ameaça, ela resistiu. Sobreviveu ao ataque dos três bandidos. Mas acabou separada dos filhotes. Impotente e horrorizada, a mãe gueparda viu os malfeitores se aproximando dos pequenos, que miavam sem esperança de salvação.
Não quero ver!, disse para mim mesmo. Não quero ver! E desliguei a TV. O mundo animal é muito cruel, pensei. Peguei o jornal para me distrair. E a primeira notícia que li foi sobre uma mãe humana da zona norte da cidade que ensinava seu filho a espancar um cachorrinho que mede palmo e meio do focinho ao rabo. Parei de ler no meio do texto. Fechei o jornal com um suspiro. O mundo animal é mesmo muito cruel.
(David Coimbra)

3 de mai. de 2013

O que traz felicidade...


A história de Marilyn Monroe e seu triste fim, nua na cama, sozinha, o corpo sinuoso sem vida devido às dezenas de barbitúricos que lhe explodiram no estômago, esse fim é a prova definitiva de que beleza, sensualidade, dinheiro à mancheia, reconhecimento público, fama planetária, sucesso imorredouro, talento luminoso, juventude, viver na maior cidade do mundo, morar confortavelmente, comer bem, fazer sexo livre e relacionar-se com as pessoas mais inteligentes, como Truman Capote, e mais poderosas da Terra, como os Kennedy, não traz felicidade.
Mas então eu pergunto: que PTZGRILLWOFREMBAERCRSTNAKLIMBASTINHUGUI@$@#%¨&*((%–@***BLUMCLENVIST traz felicidade?
Aí é que está: a felicidade não depende de nada do que está fora de você; depende exclusivamente do que você leva por dentro.
Como auxílio luxuoso, vou valer-me do apoio do velho e bom alemão Schopenhauer:
“Para o bem-estar do homem, para todo o modo de sua existência, a coisa principal é, manifestamente, o que se encontra ou acontece dentro dele mesmo. Com efeito, é nisso que reside imediatamente o seu contentamento íntimo, ou descontentamento, que é antes o resultado do seu sentir, querer e pensar; enquanto tudo o que se situa na exterioridade tem apenas uma influência mediata. Por isso, os mesmos acontecimentos, ou situações exteriores, afetam de modo diverso cada pessoa e, em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente”.
Vou repetir, frisar e sublinhar essa frase do lobo solitário de Frankfurt:
“Em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente”.
É aquela história de dois irmãos, criados da mesma forma, pelos mesmos pais, na mesma casa, dispondo das mesmas condições, saírem completamente desiguais.
Por que isso?
Porque o mundo todo está dentro de você, não fora. O mundo depende de você, e não você do mundo.
(David Coimbra)

16 de abr. de 2013

Morrer com saúde...

 
Se eu tivesse seis meses de vida, não voltaria a fumar.
Se eu tivesse seis meses de vida, não empreenderia nenhuma viagem pelo mundo.
Se eu tivesse pouco tempo de vida, não enlouqueceria a resistência com farras e bebedeiras.
Não entraria em casas noturnas para mergulhar em rodadas insanas de sexo.
Não iria surtar dobrando o colesterol e engordando nas mesas das churrascarias.
Absolutamente não me vingaria dos vícios abandonados ao longo dos anos.
Não depredaria a casa bradando justiça.
Não sairia atropelando os amigos com as vontades reprimidas.
Não realizaria catarse, libertação, desforra dos recalques.
Manteria a musculação quatro vezes por semana, continuaria não bebendo refrigerante, preservaria as caminhadas, insistiria em dormir e acordar cedo. Minha Porto Alegre me veria em seus mercados, parques, restaurantes.
Um aviso fúnebre não impactaria meus cuidados físicos.
Não lamentaria que não adiantou em nada a preocupação com o bem-estar, que fui burro me controlando.
O fim não elimina o valor das dietas que experimentei, das fisioterapias que acumulei, das restrições alimentares que adotei.
Temos a sensação de que paramos o que nos prejudica para viver mais.
Eu parei para viver melhor. Mesmo que seja por mais alguns dias.
Viver melhor para mim é viver mais.
Minha mãe de 73 anos soltou uma de suas frases sábias quando passeávamos pelo bairro Petrópolis.
– Quero morrer com saúde.
– Como assim? – repliquei. – O que é morrer com saúde?
– Quero morrer com forças para enfrentar a morte de igual para igual. Morrer mexendo na horta, lendo na varanda, pensando em qual filme ainda não vi. Tão triste morrer e não ter nem força para cumprimentar os anjos.
Eu também quero, mãe. Morrer bonito. Morrer com o rosto descansado e satisfeito. Morrer com um pouco de preguiça. Morrer sobrando. Morrer com a vontade de amar a mulher de noite. Morrer espiando as ofertas dos classificados, completando as palavras cruzadas do jornal. Morrer com as articulações das pernas firmes e os braços levantando o peso das frutas. Morrer sabendo o resultado de meu time e sua posição no campeonato. Morrer com confiança. Morrer respirando largamente. Morrer com a memória das datas prediletas.
Não morrer pessimista. Não morrer desesperançado. Não morrer longe de mim.
Morrer feliz com o que eu tive e fui capaz de fazer.
Morrer acenando com força na janela dos olhos de Deus.
(Fabrício Carpinejar)

13 de abr. de 2013

Apegos


Dizem alguns filósofos e também os budistas: o apego é a causa de todas as nossas dores emocionais. Concordo, mas faço ressalvas. O apego também provoca inúmeras alegrias e satisfações. Não faz sentido evitar filhos, paixões e amizades a fim de se proteger de tristezas, preocupações e frustrações. Passar uma vida inteira desapegada das pessoas seria entregar-se ao vazio existencial – e nunca ouvi dizer que isso gerasse bem-estar. Desapegar-se em troca de paz é uma falácia, só demonstra covardia de viver.

Não haveria um caminho do meio? Xeretando ainda mais os livros de filosofia, encontrei algo do romeno Cioran que me pareceu chegar bem perto de uma saída para o impasse. Diz ele que a única forma de viver sem drama é suportar os defeitos dos demais sem pretender que sejam corrigidos.

Eis aí uma fórmula bem razoável para não se estressar. Apegue-se, tudo bem, mas com 100% de tolerância. Em tese, é perfeito.

Em menos de poucos segundos, consigo listar tudo o que me incomoda nas pessoas que mais amo. Conseguiria listar também o que me faz amá-las, é claro, mas o ser humano veio com um chip do contra: os defeitos dos outros sempre parecem mais significativos do que suas qualidades. Depois de um longo tempo de convívio, aquilo que nos exaspera torna-se mais relevante do que aquilo que nos extasia.

Pois a recomendação é: exaspere-se, mas saiba que não vai adiantar. Nada do que você disser, nenhuma cobrança, nenhum discurso, nenhuma novena, nada fará com que os defeitos do seu pai, da sua mãe, do seu marido, da sua mulher ou dos seus filhos desapareçam num passe de mágica. Assim como os seus também jamais evaporarão, por mais que os outros rezem e supliquem pra você deixar de ser tão ........... (preencha os pontinhos). Você é capaz de reconhecer seu defeito mais insuportável?

Só mesmo passando uma longa temporada num mosteiro do Tibete para desenvolver a capacidade de aceitar tudo o que nos tira do sério. Seu filho indiferente, seu marido pão-duro, sua mãe mal-humorada, sua amiga carente, seu chefe durão, seu zelador folgado, sua irmã fofoqueira, seu colega chatonildo – imagine que paraíso se pudéssemos relevar essas e tantas outras diferenças, comungando com os defeitos alheios sem nunca mais esperar que os outros mudem. Deixar de esperar é uma libertação.

Pois não espere mesmo, pois ninguém vai mudar nem um bocadinho. Nem você, nem aqueles que você tanto ama, por mais que você pense que é fácil alguém deixar de ser ranzinza, orgulhoso ou o que for. Aceite todos como são e, aleluia: drama, nunca mais. Se conseguir, tem um troféu esperando por você, além de prêmio em dinheiro e uma foto autografada do Buda.

(Martha Medeiros)

30 de out. de 2012

Um bom conselho...

"Risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil. Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni. Mulheres reais são mulheres imperfeitas. E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres. Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.” 
(Leila Ferreira)

19 de set. de 2012

O bom humor...

Há mulheres que seriam belíssimas se fossem simpáticas.
Uma mulher que conheço está enquadrada neste conceito, secretamente, saberá que estou me referindo também a ela.
E não estou me referindo a mulheres que não são simpáticas comigo. Refiro-me às mulheres que são antipáticas com todos.
Essas mulheres veem sua beleza completamente ofuscadas por sua antipatia.
E a beleza original delas é completamente desaparecida pela máscara de não se tornarem agradáveis, solícitas, dispostas à sociabilidade.
É possível que esse tipo de mulher se torne assim tão insociável porque tem consciência de sua beleza. Funciona, assim, desfavoravelmente a tal de megalomania.
Mas tão pronto se instala nelas uma agressiva antipatia, desaparece como por encanto a sua beleza.
Por sinal, deve ser por isso inerente ao conceito de beleza a simpatia.
Talvez seja exatamente por isso, aliás, que em certos concursos de beleza, além de ser pelo júri escolhida a mais bela, é também escolhida a Miss Simpatia.
Sem simpatia, há belas que se tornam feias.
Assim como, com simpatia, há feias que se tornam muito menos feias.
Um amigo meu me disse: “Sant’Ana, aquela mulher que estás vendo ali, a 20 metros daqui, era para ser bonita. Não o é porque insiste em ser antipática. Que desperdício! Ela não sabe o que está perdendo. O que a natureza deu-lhe de bom, o seu temperamento mudou para mau”.
Inteira razão tem meu amigo.
Por falar nisso, as minhas investigações sobre o comportamento humano constataram que é impossível a uma pessoa que não tenha bom humor ser simpática.
Ou seja, o bom humor é o tempero da beleza. Sem bom humor, a beleza resta depauperada, ensombrecida, obnubilada.
Por lógico, quem não tem bom humor passa a ser uma pessoa que encontra muita dificuldade para relacionar-se.
Às vezes, deparo em alguns jornais com anúncios oferecendo colocação para pessoas de boa aparência.
Se eu fosse empresário e tivesse de recrutar pessoas para trabalhar na fachada da minha empresa, poria o seguinte anúncio: “Precisa-se de funcionários ou funcionárias bem-humoradas. Se não usa o sorriso como norma, nem adianta apresentar-se”.
Sendo assim, considero o bom humor essencial para qualquer profissão.
No entanto, como sou radialista, considero inarredável que todo bom radialista seja bem-humorado.
Os maiores radialistas que conheci ou que conheço eram e são bem-humorados.
Não existe nada pior no rádio para os ouvintes do que um apresentador mal-humorado, sem jogo de cadeiras, taciturno, não coloquial.
O mau humor deve ser obra de algum demônio que quis desgraçar na vida os seus portadores.

(Paulo Sant'ana)