9 de abr. de 2015

Amores líquidos...


Nunca pensei seriamente em casar antes dos 30 anos. Nem me passava pela cabeça, apesar de viver amancebada, num relacionamento monogâmico e sólido, com direito a um cachorro-filho, e coleção de panfletos de lançamentos de imóveis. Eu não tinha a menor pressa de me confinar numa relação por mais séria que ela fosse e por mais que eu nem vislumbrasse o fim dela.
A vida amancebada acabou, caí em outra. Me apaixonava, era feliz e depois morria de amor. A dor passava como se não tivesse acontecido. E eu achava que aquele ciclo de 'amar, me ferrar e seguir amando' fazia parte da dolorosa e entediante fórmula de amadurecer.
Não sentia o tempo passar como se fosse uma bomba-relógio, e nem conhecia a fantasia predileta de nove entre dez mulheres que ainda piram com medo de envelhecer num quarto e sala em Copacabana, rodeada de gatos e pilhas de jornais velhos.
Eu gostava de namorar e desnamorar.
E entre amores haviam os não-amores. Relacionamentos que duravam tão pouco que nem poderiam ser chamados assim. Eu já vivia relações líquidas antes que essa expressão fosse cunhada e servisse de explicação para todas as frustrações de hoje. Não é de agora que paixões acabam antes mesmo de começar. Ainda que muita gente jure de pé junto que ser solteiro é a arte do desencontro, e que isso seja um fenômeno atual.
Talvez esteja mais evidente, mas há muito tempo é assim. A gente passa anos acreditando que é infeliz porque não encontra alguém pelo caminho. Esquece que estar solteiro não é uma sina e que encontrar gente bagaceira faz parte da jornada. Difícil acertar de cara. Mas, honestamente, quem quer acertar de cara? Que graça tem o doce se a gente não tiver certeza de que jiló é ruim mesmo?
Para muitos, essa fase passa, para outros, não. As pessoas não estão piores. Estão diferentes. E no amor a regra tem sido a mesma da vida. Nem tudo é feito para durar, vivemos a era da modernidade líquida, como descreveu há alguns poucos anos o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Um vozinho de 89 anos, mais esperto que todos nós juntos que nos achamos tão modernos, mas não passamos de caretas, carentes.
Hoje, trocamos de emprego, de roupa, de celular, de amizades e de amor numa velocidade atordoante. Tratamos as coisas e os sentimentos como se fossem insípidos, inodoros e translúcidos. E isso não é necessariamente ruim.
É o reflexo de antigos desejos. A gente esteve em busca disso durante muito tempo. Homens e, principalmente, mulheres. A gente queria poder namorar, transar, casar e descasar, virar a vida do avesso conforme nossa vontade. E chegamos lá. E agora não sabemos lidar com isso. A gente quer que seja amor, quando é só uma noite mal-dormida.
Já encarei o silêncio de um telefone mudo várias vezes. Procurei respostas para ausências que não tinham explicação. Esvaziei garrafas. Enxuguei choro. Me entreguei a um coitadismo chato pra caceta, mas consegui assoar o nariz, limpar a remela e enxergar que isso não nos leva a nada.
Faz parte estar solteiro. Faz parte essa impressão de querer viver um amor que não existe. E ele não existe mais como antes. Não na mesma velocidade. Mas a gente insiste em sofrer separações onde nunca houve compromisso.
Por que o desespero? Por que o desalento?
A gente precisa da experiência do não-amor. Não dá para ter pressa. O amor não acontece quando a gente quer. Sosseguem. Talvez não aconteça mais aos 20, nem mais aos 30 anos. Pode ser cada vez mais tarde, talvez por isso cada vez mais verdadeiro. E se não for verdadeiro, talvez não aconteça. Porque somos cada vez mais verdadeiros com nossos sentimentos. E nosso coração não aceita e nem precisa aceitar nenhum amor mais ou menos.
Sempre me considerei otimista, mas descobri que me encaixo em outra categoria, como o vozinho Bauman: sou uma pessoa que tem esperança. "De outra forma não veria sentido em falar e escrever", disse. Digo mais: de outra forma não veria sentido em acreditar no amor. Mesmo que ele demore a acontecer, porque ele acontece. Mas pode não ser hoje.
(Mariliz Pereira Jorge)

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