15 de ago. de 2011

Com todos, menos comigo...



"O meio mais eficaz para obter fama é fazer o mundo acreditar que já se é famoso." (Giacomo Leopardi)


Já me conformei em aceitar o fato de que certas coisas extraordinárias jamais acontecerão comigo. Tipo assim, ninguém nunca vai me parar no supermercado e perguntar se não estou a fim de largar tudo e começar uma carreira de modelo fotográfico em Nova Iorque, Milão ou Paris. Muito dificilmente alguém algum dia vai jogar meu nome no google, descobrir que eu sou um talento raro da literatura e se oferecer para patrocinar meu primeiro best seller. Também acho muito remota a possibilidade de estar andando na rua e alguém me oferecer flores sem que isto seja Impulse. Enfim: estou consolada com o fato de que sou uma pessoa mais ou menos comum dentro do padrão de normalidade, e que não há crime ou demérito algum nisso.
Eu nunca ganhei nenhum concurso cultural, nunca fui entrevistada pelo Ibope, jamais apareci na televisão. Nunca fui presidente de classe, oradora da turma nem nunca fui homenageada com qualquer prêmio ou menção honrosa. Sempre fui anônima e durante anos carreguei uma pesada frustração por conta disso, porque cresci achando que tinha que ser diferente, especial, única e inesquecível, para deixar minha marca no mundo e não fazer da minha existência uma breve e vã perda de tempo.
Achar que algo fantástico um dia iria me acontecer e mostraria ao mundo o meu imenso valor fez com que eu dedicasse uns bons anos de vida à espera de ser descoberta. Mas, descoberta em quê? Que grandes e maravilhosas habilidades seriam essas, tão escondidas que nem eu mesma as identificava? Esse é a velha questão de viver sempre em comparação com a sorte alheia, com os milagres que eu acreditava só acontecerem com os outros.
O grande problema da vida ordinária é justamente sepultar todas as criaturas na mesma vala comum, como se não tivéssemos identidade e fosse impossível algum destaque - já que viemos todos da mesma forma. Daí a se rebelar e a querer fugir de uma fabricação em série é um pulo. Assim, cada vez mais as pessoas estão dispostas a tudo, a tudo mesmo, para causar: se eu colocar meio litro de silicone na retaguarda e assim ficar parecida com um cavalo, não tem problema, ora. Quem não é visto não é lembrado e o que importa é estar na boca do povo.
Chega até a ser injusta - mas não menos divertida - essa competição sobre quem tem menos pudor de se expor aos maiores vexames para aparecer. Não há limite para a imaginação das pessoas: celulares estrategicamente acondicionados em lugares improváveis, pessoas divulgando sua 21ª cirurgia plástica ou 14ª separação, mulheres acrescentando a sessão de hortifrutigranjeiros ao sobrenome. Desfrutar de prestígio passou a significar ter uma enorme disposição e imenso furor midiático para entrar num vale-tudo.
Ser diferente, como dizem, é legal, mas devagar com o andor para não desvirtuar o ditado. Tudo bem a gente querer ser especial; o que não dá é para fantasiar que a nossa especialidade nos faz melhor ou superiores aos outros, e que sem algum talento incomum, sem algum dom inimitável ou falta de vergonha na cara não valeremos nada.
Ou isso ou então abandono o recato que ainda tenho e lanço um hit no YouTube (mesmo sem saber cantar, que isso é detalhe) ou, quem sabe, a minha candidatura nas próximas eleições. Posso inclusive escrever uma autobiografia bombástica ou até estrelar um ensaio sensual; pouco importa, a gente quer mesmo é ser popular. O que conta é estar na moda, ainda que através das bocas de Matilde - ou não?
(Daiana Franco)

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