14 de jul. de 2011

Beijo, não me liga...



"Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear pelo telefone." (Otto Lara Resende)


É com prazer que eu me descubro uma pessoa normal por detestar falar ao telefone. Achava que era uma das poucas (senão raras) criaturas avessas ao aparelhinho, até pouco a pouco ir descobrindo uma fraternidade que também resiste ao máximo a essa tecnologia. Coisa mais sem graça falar com quem não se vê! Pior que isso, só conversar com uma secretária-eletrônica, a prima-irmã do telefone. Ô, família infeliz.
É claro que eu reconheço a importância da grande descoberta de Graham Bell e nem poderia imaginar a vida sem todas as facilidades que sua invenção proporciona, mas tenho que admitir que me incomoda muito conversar por telefone. Se for para pedir uma pizza, ligar para a farmácia ou fazer uma chamada breve, quase telegráfica, tudo bem; mas se já sei de antemão que o telefonema vai se desdobrar em mil frases, perguntas e papo-furado, já começo a sofrer por antecipação: primeiro, porque não sei encerrar conversas sem estar enxergando o rosto do meu interlocutor (já contei antes que sou a rainha de terminar subitamente uma ligação sem perceber que a outra pessoa ainda está falando); depois, porque invariavelmente esses telefonemas espichados são recheados de enrolação, de comentários profundos como "acho vai chover de novo, não é?", "e esse tempo maluco?" ou "esse ano vai dar seca de novo." E o fim é quase sempre o mesmo: "então, está bem...", "está bem, então..." - o roteiro é quase sempre raso e extremamente previsível.
Devo parecer a pior das amigas por não ligar tanto quanto deveria. Quando chegam os aniversários das pessoas mais queridas, confesso que é com uma enorme resistência e uma culpa maior ainda que vou postergando o momento de telefonar, procurando freneticamente uma alternativa melhor e menos sofrida do que a conversa ao vivo: um e-mail, uma cafoníssima telemensagem, sinais de fumaça, mensagem de texto, um scrap no Orkut ou Facebook. Tudo é muito impessoal, não há nada que substitua o carinho de uma ligação, eu sei, mas lamentavelmente sou um caso perdido. É o mesmo sofrimento quando alguém fica doente ou faz uma cirurgia, ou está passando por uma situação difícil e eu sei que tenho o dever de prestar solidariedade: na maioria das vezes me faço de boba ou de desentendida, não ligo, deixo passar. Me engano pensando que sempre posso telefonar mais tarde, ou amanhã, ou na semana que vem, mesmo sabendo de antemão que vou acabar não fazendo, que o tempo vai voar e, mais uma vez, vou ficar roendo a corda do remorso por ter sucumbido novamente a minha própria e irracional fonofobia.
Prefiro mil vezes as visitas e os encontros aos telefonemas, quando posso falar pessoalmente todas aquelas coisas bonitas e legais que simplesmente sou incapaz de dizer por telefone, porque fico bloqueada, porque me sinto estranha, porque não me acostumei a abrir o coração para uma máquina e ainda duvide, tanto quanto alguns não acreditam que o homem já foi mesmo à Lua, que haja realmente uma pessoa na outra pontinha do fio telefônico, muitas vezes a milhares e milhares de quilômetros de distância de mim.
Esse trauma deve ter alguma origem remota, pois me lembro perfeitamente bem de que, quando era adolescente, passava horas telefonando clandestinamente para todos os meus amigos de caderninho, e se não fossem as absurdas tarifas cobradas pela companhia telefônica ficaria tranquilamente umas boas três ou quatro horas de conversa fiada com quem quer que fosse. Devia ser a empolgação pela novidade ou os hormônios da idade, já que só fui ter telefone em casa lá pelos doze ou treze anos. Quem sabe toda essa minha relutância não tenha se iniciado quando fui apresentada ao abominável mundo do telemarketing e todas as suas gerúndicas frases de efeito.
Eu jamais poderia ser telefonista; parabéns a elas, que aturam toda a sorte de blablablás. Também compreendo perfeitamente as pessoas que não me ligam nas datas importantes, mas que de uma forma transversa marcam presença e se fazem lembrar; é tudo uma questão de criatividade. Estamos todos perdoados, porque, no final das contas, não é o alô que faz a diferença e sim tudo aquilo que se diz cara a cara, frente a frente, tête-à-tête.
(Daiana Franco)

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