4 de jun. de 2011

Saudosa maloca...


"A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração." (Coelho Neto)

Nesta última semana, tive a oportunidade de conversar ao vivo com meus pais e tirar uma dúvida que há tempos me acompanhava: queria conferir com eles se a lembrança que eu tinha de uma das casas em que moramos durante a minha infância era fidedigna. Para a surpresa de ambos, eu me lembrava de muita coisa, de quase tudo: da disposição dos cômodos, dos móveis que havia, do pátio, até das cores dos ambientes. Algo impressionante para a idade que eu tinha quando saímos de Recife, onde nascemos eu e meus irmãos, e viemos parar no sul do país.
Sempre fiz questão de me apegar às memórias do passado como uma forma de nunca esquecer quem eu fui e porque me tornei a pessoa de agora. É quase uma obsessão essa mania de reverenciar todas as datas e detalhes da minha vida; sou como um elefante, não me esqueço de nada. Não podia ser diferente com as casas em que morei, especialmente aquelas em que fui mais feliz. Lembro exatamente do que eu sentia enquanto morava em cada um daqueles lugares (meus medos, minhas alegrias, minhas maiores aflições e os problemas que, naquele tempo, pareciam insolúveis para a minha quase inexistente quilometragem de vida), dos amigos conquistados, das brincadeiras despreocupadas no meio da rua até altas horas da noite quando estávamos todos em férias, do primeiro inverno passado numa casinha simples de madeira, do primeiro dia de aula e da espera nervosa pela Kombi no portão da frente de casa. Lembro dos cachorros que tínhamos a cada época, dos carros que já passaram pelas nossas garagens e até mesmo dos apelidos que cada um ganhou de meu pai (primeiro, um quase onipresente Fusca; depois, uma Variant, alguns modelos de Fiat - verdadeira adoração de minha mãe - e uma Belina, que mais parecia uma grande banheira).
Uma vez, tive a oportunidade de voltar à primeira casa em que vivi quando recém havíamos chegado do Nordeste, convidados que fomos, eu e minha família, para uma festa que os novos donos ofereciam. Aguentei o quanto pude, até pedir que minha mãe intercedesse junto à nova proprietária e me deixasse percorrer sozinha aqueles quartos, corredor, sala, cozinha e banheiro novamente, sentindo o incrível poder do meu cérebro de resgatar, ao abrir cada porta, situações já bem soterradas no fundo do baú. Pensando bem, não lembro como os novos moradores haviam arrumado aquela casa; olhar para cada cantinho era como enxergar de novo as nossas coisas instaladas: o radinho velho em cima da geladeira, a piscina de plástico no fundo do terreno, o tapete que minha mãe bordou no chão do que um dia foi o quarto do meu irmão mais novo, o quadro que meu pai pintou pendurado na parede da sala, o cinzeiro que ele esculpiu tão habilmente, colocado em alguma mesa ou bancada.
E há também as lembranças das festas históricas que demos, das noites quentes de um verão massacrante, com portas e janelas valentemente escancaradas, brinquedos espalhados pela sala, a televisão ligada a mil na hora da luta de boxe, minha mãe pacientemente fazendo a janta e implorando que fizéssemos só um pouquinho de silêncio, que a cabeça dela estava estourando de dor. São memórias agridoces, quase de uma outra vida, de um outro mundo, de um outro eu que não consigo esquecer e de que não posso me desvencilhar.
Eu tenho uma saudade imensa, melancólica e suavemente dolorosa desses anos da minha primeira infância. Por isso me apego tanto ao passado: é lá que vou buscar as explicações para o meu presente e, de certa forma, projeto como será o futuro de ora em diante.
(Daiana Franco)

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