
"Supérflua é toda a coisa de que não precisamos e, mesmo assim, não conseguimos viver sem."
Quando eu era pequena e convivíamos dois adultos e três crianças com orçamento apertado, tudo o que não fosse o mais básico dos básicos era considerado supérfluo.
Acho que não tinha uns seis anos e já sabia o significado da palavra: supérfluo era tudo aquilo que a gente via no supermercado e a mãe dizia que não podia comprar.
Supérfluos daquela época eram refrigerantes, brinquedos, chocolates, roupinhas, tênis e sandalinhas da moda, sorvete, bolachas, revistinhas, álbum de figurinhas.
Na minha casa, tínhamos o suficiente para viver de modo enxuto. Cada filho tinha uma ou duas mudas de uma roupa de sair melhorzinha- as do dia-a-dia vinham recicladas de primos mais velhos-, um calçado que era poupado para ocasiões especiais, brinquedos compartilhados e pronto. Doces e refrigerantes, só em aniversários ou aos domingos(e essa determinação era seguida religiosamente). Quando algum amiguinho aparecia com alguma novidade- como o ioiô da Coca-cola, em Acquaplay, uma Susi ou um Genius- a gente pensava que era coisa do outro mundo, e que inveja que se sentia!
Se formos perguntar a pessoas da nossa idade, todas elas vão confirmar que também era assim nas suas casas quando eram crianças: tinha só arroz e feijão e ninguém era mais triste por causa disso. Talvez tudo fosse mais fácil porque não havia tantas comparações; todo mundo era mais ou menos igual.
Até hoje sinto uma culpa tremenda de comprar desodorizador de ambientes- o vulgo Bom Ar-, que é a materialização da superficialidade doméstica dos meus tempos de infância. Isso nunca existiu na minha casa de menina e eu pensava que jamais teria dinheiro para esse tipo de bobagem. Hoje percebo que supérflua é toda a coisa de que não precisamos e, mesmo assim, não conseguimos viver sem. A casa da gente dos dias de hoje, por exemplo: tenho certeza de que poderíamos viver bem, muito bem mesmo, com 90% menos do que acumulamos ao longo da vida.
Sempre penso que se acontecesse uma desgraça e eu perdesse tudo o que tenho, não seria assim uma pena tão irreparável: finalmente me daria conta de que quase todos os livros, discos, quadros, roupas e objetos há muito já não faziam mais parte da minha vida; estavam devidamente mumificados nas estantes e armários, escondidos atrás de uma porta, invisíveis em uma parede em uma parede ou gaveta. Muitos foram esquecidos; quando acidentalmente encontrados, provocam aquela expressão de supresa e dúvida quanto a sua propriedade: "Mas isso aqui é meu, mesmo? Nem lembrava mais que tinha!"
Se eu tivesse apenas cinco minutos para salvar o mais importante dentro de casa, pegaria minha filha e meus gatos, cataria os álbuns de fotografias, minha bolsa, agenda e nossos documentos- ou seja, salvaria os seres vivos e todas as coisas de valor sentimental ou prático inestimável. O resto é supérfluo. Tudo pode ser conseguido novamente.
Talvez ainda não nessa vida eu aprenda o dom supremo do desapego, mas já é um começo que tenha percebido não precisar do muito de besteiras que vim colecionando nesses anos todos. "Menos é mais" deveria ser uma regra de vida, não só de moda. Todas essas bagagens são fruto da nossa enorme falta de personalidade e grande potencial de influência: a gente vê alguma coisa bonita e logo cobiça. Alguém aparece com uma novidade e nossos olhinhos começam a brilhar.
Não queremos repetir roupa achando que com isso não seremos óbvias. Pensamos em renovar a decoração da casa porque nos cansamos da TV quarenta e tantas polegadas ou de plasma, do sofá de couro, dos Muranos, dos cristais da Bohemia, sem sequer lembrar dos tempos de pão com manteiga ou banha, brincadeiras de rua, K-suco e pirulitos Zorro- um tempo em que ser feliz era de graça, ninguém era viciado em televisão e depressão era um termo médico cabeludo.
Algum dia vou escrever sobre saudosismo, uma doença incurável em mim. Suspeito que eu viva tanto no passado porque naquela época não existia tanta competição, sofreguidão e diferença entre as pessoas -ou a minha memória é que é seletiva. A gente fazia um kerb com três pessoas, música e um churrasco de coraçãozinho de galinha e salsichão. A alegria de viver vinha de fábrica, mas quando começaram a plastificar a felicidade ela se perdeu. Ficou em algum lugar do passado e virou, lamentavelmente, um supérfluo.
(Daiana Franco)

A Daiana Franco é o supra sumo da literatura...Adoro o q ela cria...Um luxo!Bjo pra vc!!!
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