17 de dez. de 2010

Crônica do dia: Um livro,uma história.


Uma tarde, faz já alguns meses, recebi uma ligação estranha. Uma voz de mulher identificando-se com enfermeira. Dizia ter livros para me dar, muitos livros. Livros para me dar! Gosto disso.
A mulher contou que cuidava de uma paciente com 99 anos de idade, uma senhora que vivia sozinha em seu apartamento na Duque de Caxias. Durante todas aquelas décadas, a senhora acumulara livros à mancheia. Agora, no fim da sua jornada nesse Vale de Lágrimas, enfraquecida por doenças, acamada, os livros não lhe serviam mais e, como em geral acontece, a família não sabia o que fazer com eles. Donde, a ligação. Eu queria os livros?
Uau! Claro que que queria!
Combinei de buscá-los num sábado pela manhã. Passei dias imaginando a biblioteca que transferiria para minha casa. O porta-malas do meu carro seria suficiente para carregá-los?Teria de buscar caixas no supermercado? que autores me esperavam?
Na data aprazada, cheguei ao endereço que a enfermeira havia me dado, um prédio antigo no centro da cidade. Subi pelo elevador.
Quem abriu a porta foi uma jovem: a enfermeira. Um dia antes, a velhinha se mudara para o hospital.
A moça me conduziu até algumas pilhas de volumes atirados no parquê da sala. Dezenas de livros. Centenas, talvez. Agachei-me para examiná-los. Malconservados, empoeirados, alguns já sem a capa. Muitos escritos em francês, outros tantos em espanhol, a maioria "romances de moças" do meio do século passado. Os títulos se assemelhavam: o marido ideal, a noiva feliz, a paixão realizada, o homem da minha vida, amores, amores, sem fim. De todos aqueles livros, só um me interessou. Um único.
Suspirei. Ergui-me. O estilo dos livros despertou-me uma suspeita. Perguntei à enfermeira se podia ver mais do apartamento. Ela concordou. Guiou-me pelas peças amplas, atulhadas de mobiliário. O lugar parecia ter sido congelado nos anos 50. Como esses apartamentos de casais que têm filhos já adultos, filhos que já se emanciparam e foram embora, viver suas próprias vidas em seus próprios apartamentos. O apartamento dos pais fica cristalizado no passado, no tempo em que as crianças davam-lhe alma. Assim era o apartamento da velhinha, com seus porta-retratos, seus abajures, suas cristaleiras.
Voltei para as pilhas de livros. Peguei o único que havia considerado aproveitável. Virei-me para a enfermeira:
-Desculpe perguntar, mas essa senhora...ela é solteira?
-É-confirmou.- Noventa e nove anos e nunca se casou, apesar de ter sido bem bonita quando jovem. Nunca teve um homem, um namorado, nada. Sabe...- a enfermeira vacilou- Ela era virgem...
Mas, esses dias, enquanto cuidava dela, ela se ergueu na cama e perguntou se eu era sua filha...
Olhando para o livro que tinha nas mãos, mal acreditei em toda aquela história. Era redonda demais. Era como se fosse um filme. Como uma das histórias romanescas que embalaram a imaginação da dona do apartamento em sua juventude. Porque o livro, o único livro interessante dentre tantos que ela havia guardado em sua longa vida, era um clássico de Gabriel Garcia Márquez:
"Cem anos de Solidão".
(David Coimbra)

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