
"Não existe forma melhor de conhecer uma pessoa do que viajar com ela. Só quando dividimos uma casa, um apartamento, um quarto de albergue, um assento num ônibus ou num avião é que podemos dizer que desvendamos a alma de alguém.
Numa viagem, longe de todos os confortos do dia-a-dia, muitas vezes com tempo e orçamento apertados, é que as verdadeiras personalidades se revelam.
Quem parecia ser muito gente boa, uma pessoa tranquila e amável, não vai conseguir esconder por muito tempo que sofre de mau humor matinal, por exemplo. Ou que, ao contrário de nós, não tem o melhor interesse em conhecer todos os pontos turísticos e culturais de uma cidade, odeia caminhadas, detesta passar fome ou calor e veio mesmo só pela parceria-mas que parceria? Nada mais desastrado do que colocar chimangos e maragatos numa mesma excursão.
Compartilhar experiências deveria requerer o preenchimento de um formulário em que constassem informações imprescindíveis para o sucesso de uma jornada: o candidato tem pique para longos passeios a pé? Tem bom relacionamento em grupo? Tem alguma restrição alimentar? Ronca? Dependendo das respostas, o sujeito receberia o bilhetinho azul só de ida para bem longe.
O mesmo cuidado deveria haver ao dividir uma hospedagem. Ratear o aluguel de uma casa na praia exige regras claras: quem vai ficar com o quarto que tem ventilador? Quem faz o almoço enquanto todos estiverem na beira-mar? E quem cuida da louça depois? As compras vão ser divididas ou cada um leva o seu? A gente vai deixar nossas crianças dividirem os salgadinhos com os filhos dos outros, que não dividem nada com ninguém?
Mesmo com todas essas cautelas e combinações prévias, não é difícil ver alguém emburrado num canto, se achando prejudicado na divisão de tarefas ou logrado em 1,77 cobrados a mais na conta do supermercado.
Ah, a convivência...sempre achei que o ser humano é um mal necessário. Mas fazer o que, se a gente não pode viver o tempo todo sozinho? A solução é ser criterioso na escolha dos nossos pares. Não se contentar com qualquer um, porque isso é meio caminho andado para desentendimentos. É loucura viajar com alguém completamente diferente da gente, e estão aí os viajantes em grupo que não me deixam mentir: na ida estão todos empolgadíssimos, cheios de expectativas, achando que encontraram seus novos melhores amigos de infância, mas espere a volta para ver se a empolgação continua a mesma. Não raro quem era amigo do peito voltar inimigo de morte.
Viajar junto é uma loteria e tem mais chance de dar errado do que dar certo.
É preciso uma grande dose de abnegação e fingimento para fazer a coisa funcionar, e com o relógio correndo contra não dá muito tempo de só ser legal com os outros. Por isso é que muvucas sempre me incomodaram: mais de quatro pessoas num mesmo passeio e eu já começo e me sentir meio mal. Alguém invariavelmente vai precisar ir mais ao banheiro do que os outros, ou vai se atrasar todos os dias para o café da manhã, ou vai sumir/se perder e colocar todo mundo a sua caça e aí pronto, o clima azedou.
Viajar é tudo de bom, a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos depois de nos instruir, mas não a qualquer preço e nem com qualquer um. Depois de uma viagem não é só o passaporte que volta diferente; nossa obrigação é nos esforçar por agregar memórias e experiências prazerosas, e não o martírio de uma convivência torturante.
(Daiana Franco)

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