16 de ago. de 2010

Resposta Certa...



Toda mulher é experiente em testes. Atravessou a adolescência preenchendo questionários de revistas femininas,definindo pela pontuação se é sensual,se terá sucesso financeiro,se ele a ama.
Constantemente busca levantar coincidências e armar uma simbologia para encontros e esbarrões. Nada é fortuito,tudo tem uma mensagem escondida. Qualquer abordagem é uma revelação de infância.
O homem deve ficar atento quando se apaixona. Para desvendar qual é o exame decisivo da convivência. Cada mulher elabora o seu enigma,particular e intransferível. Pode ser um convite para visitar a família no interior ou na hora de apresentar seu bichinho de estimação.
É um questionário à paisana. Muitos marmanjos são descartados e não compreendem o motivo. O pé-na-bunda foi uma avaliação secreta em que ele deu uma solução errada. É impossível detectar o momento. Ela se finge de distraída:
-O que acha de The Cure?
Você deduz que é uma pergunta à toa entre milhões que serão feitas ao longo do relacionamento. Confessa a verdade,decidido a impor sua personalidade:
-Foi uma tolice adolescente.
Mas não é uma pergunta, é a pergunta. A única que importa. A decisiva. Ela parte do princípio que nunca se envolverá com um cara que não curte The Cure. Robert Smith continua sendo seu ídolo. Não adianta demovê-la da idéia. Na mulher,qualquer idéia se transforma rapidamente em crença.
O batismo de fogo muda conforme as obsessões da moça. Cuidado com o que diz ao tomar sopa de beterraba num restaurante polonês,cuidado com o que diz na saída de um filme sueco. Esteja preparado,um vacilo e ouvirá o som gelado da guilhotina: zaz! (o número do seu telefone desaparecerá do celular dela)
Antes de ser minha namorada, Cínthya me convidou a correr e participar de seu habitual trajeto na Usina do Gasômetro. Fez sombra na cabeça o zepelim da gozação, aquilo soava como brincadeira. Não combinava com minhas características no orkut: sedentário,fumante,escritor e adepto incondicional do LER. Fiquei tentado a rosnar um "boa sorte": me reprimi e aceitei,com um sim engasgado,um sim arrependido. Não tinha noção de como completaria o percurso. Afinal,eram oito quilômetros e não desfrutava de uma mísero calção,muito menos de fôlego.
Enfrentei o desafio disposto a enfartar. Se é para morrer que seja por ela.
Não senti as pernas por dois dias. Ainda menti que queria mais: que tal ir até Restinga e voltar? Cínthya terminou o passeio impressionada com a performance. E com meu contentamento silencioso-não falava,bufava,concordando com a cabeça,preucupado em como respirar no próprio corpo.
Conversando com seu irmão Gustavo,descobri o costume em submeter os pretendentes a uma corrida: "É seu teste para o namoro!".
A enxaqueca apareceu quando esclareceu que ela somente iria casar com quem completasse uma maratona ao seu lado. A pergunta dela vai durar 42 quilômetros.
(Crônica de Fabrício Carpinejar no jornal Zero Hora de hoje)

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