
Quando eu tinha uns 7 anos,mais ou menos,minha escola organizou uma festa junina-que,aqui no sul,é uma das ocasiões para se usar vestido de prenda,além do 20 de Setembro.Como eu não tinha vestido,minha mãe fez um pra mim e outro para a minha irmã. Achamos os nossos vestidos a glória.Eu,particularmente,sonhava com a chegada do dia da festa para aparecer deslumbrante para os meus coleguinhas,a bordo do vestido novo.Desfilava toda inflada pela casa,ensaiando poses e antecipando os elogios que eu contava receber por estar tão bonita.Pois bem: veio a festa,me preparei com todo o capricho e aquela foi uma das maiores frustrações da minha vida. Minhas colegas estavam paramentadas com vestidos de verdade,comprados em lojas ou feitos por costureiras especializadas.Só ali pude perceber que o meu vestido era de um algodãozinho vagabundo,tão roto que beirava a transparência;que a saia de baixo era de um tule deprimido e murcho que nem volume fazia;que eu parecia a prima pobre de todas as minhas amigas.Nunca mais usei vestido de prenda até vir morar em Santo Ângelo,e lá se foram uns bons 20 anos. Ter partido a cara tão precocemente me fez aprender uma das lições mais importantes da minha vida:a arrogância é um reino sem coroa.Não serve para nada.
Quem tem o orgulho de se ter feito é preciso que o seja.Em outras palavras,a gente tem que garantir ser tudo aquilo que pensamos ser.Não adianta ter dinheiro e se achar sofisticado se na verdade somos uns brutos ignorantes.Não adianta se montar da cabeça aos pés na última moda se não temos dinheiro pra pagar toda essa produção. As pessoas não compram gato por lebre por muito tempo.
Outra coisa que sempre me cheirou à vaidade disfarçada é a tal da falsa modéstia-para mim,sinônimo de humildade de araque,puro orgulho não admitido,supremo requinte da soberba. Quem vive se desculpando por ser o que é ou ter o que tem ou é um baita metido a besta enrustido ou tem sérios conflitos de autoestima.Não há problema algum em sermos bons em alguma coisa e termos reconhecimento por isso,desde que mantenhamos os pés no chão e não nos deixemos levar por ilusões megalomaníacas. A modéstia só nos presta bons favores quando serve de espécie de pudor do orgulho,de tacógrafo interno que não deixa a nossa vaidade alcançar uma velocidade imcompatível com a realidade.
Há pessoas que nunca se despem do seu orgulho:até para falar de seus próprios erros o fazem com rapidez e superficialmente,pretendendo,de certo,passar a impressão de que somos infalíveis. Tudo isso é uma grande bobagem. Não acho que existam tantas coisas assim de que valha a pena se envaidecer,e mesmo essas poucas não convém ficar propagandeando. Se a gente é inteligente,tem uma boa família,uma boa condição financeira,bons relacionamentos de trabalho,se somos bonitos,temos saúde,possuímos algum talento especial e nos destacamos de alguma forma,que ótimo. Tudo isso ou veio de brinde,como no caso da beleza ou de algum dom extraordinário,ou veio às custas de muito trabalho,que por si só já é recompensa suficiente a dispensar a bajulação alheia.
A verdade dura e simples é que todo mundo é igual,sente as mesmas coisas e é feito da mesma base falha que é ser humano.
Aqui vai um conselho útil:sejamos modestos,mas na medida certa. É o gênero de orgulho que menos incomoda.
(Daiana Franco)

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