
Paulo Coelho,no livro “Veronika Decide Morrer”,conta sobre a tese do diretor de um hospital psiquiátrico a respeito de um veneno indetectável que contamina o organismo com o passar dos anos: o vitríolo, substância que é destilada pelos organismos de seres humanos que se encontram em situação de medo. O sabor do vitríolo é identificado como não sendo doce nem salgado, mas amargo – daí as depressões serem profundamente associadas com a palavra amargura.
Segundo o livro, todos os seres têm amargura em seu organismo – em maior ou menor grau – da mesma maneira que quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas as duas doenças só atacam quando a pessoa se encontra debilitada; no caso da amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”.
Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa possa penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes – e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a amargura começa a causar danos irreversíveis. Ao evitar o ataque externo, o crescimento interno fica limitado. As pessoas continuam indo ao trabalho, vendo televisão, usando a internet, reclamando do trânsito e tendo filhos, mas tudo isso acontece automaticamente, sem que entendam direito porque estão se comportando assim – afinal de contas, tudo está sob controle.
O grande problema do envenenamento por amargura reside no fato de que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestam mais. Depois de algum tempo, já não resta ao amargo qualquer desejo.
O amargo crônico só nota a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tem o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebem que são pessoas muito sozinhas e que alguma coisa está muito errada.
O dicionário define amargura como um sentimento profundo causado por uma situação de dor, podendo ser associada também, com tristeza ou desgosto. Hebreus 12:15 nos alerta para o risco de deixarmos crescer em nosso interior a raiz da amargura. Sim, a amargura é como uma coisa viva, cresce e lança raízes que vão criando cada vez mais justificativas para ela própria.
Quando a pessoa está cheia de amargura, ela normalmente não tem paz, responde com palavras agressivas, se sente sempre ameaçada, perde a alegria e muitas vezes, mergulha na depressão. Não raro, como um mecanismo de defesa, a pessoa amarga é sempre muito orgulhosa, tenta passar uma imagem de segurança, de poder, se julga sempre certa e, com isso, acaba por afastar as pessoas que poderiam ser verdadeiramente suas amigas. Algumas pessoas, às vezes, nem se dão conta de que são amarguradas. Inconscientemente, temos tendência a negar as coisas que não gostamos em nós. Ninguém gosta de ser amargo. Então, empurramos aquilo que não queremos ver em nós mesmo para a sombra. Já falei sobre isso aqui. A sombra é considerada, na psicologia, aquele lugar escuro onde escondemos as coisas que não gostamos em nós mesmos. Mas, quando temos a coragem de olhar pra dentro, de admitir nossas fraquezas (quem não as tem?), passamos a ter muito mais chances de cura. Porque quando nossas fraquezas se manifestam, estamos sendo iluminados. Tudo que se manifesta é luz! Aqueles que tentam esconder, sob a máscara do orgulho, a sua amargura e mágoa, vão, lentamente, adoecendo pela negação da própria confissão.
É o discernimento e a confissão que leva à cura e à libertação. Sim, porque a pessoa amarga está acorrentada nela mesma.
(Mira Baeta)

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