8 de abr. de 2010

Crônica do dia

ISABELA


Sempre gostei das mulheres bonitas...
Nunca entendi as mulheres...
Entre tantas perguntas que já me fiz,uma delas eu nunca entendi,tampouco encontrei a resposta.
“Porque mulheres bonitas andam com homens feios?”
Adalberto era meu amigo.Desses que a vida manda guardar quietinho no lado esquerdo do peito...
Adalberto era do tipo magro e não era bonito.Não sabia se vestir muito bem.Tinha as orelhas um pouco grandes para a cabeça pequena.Trabalhava em uma transportadora. Morava sozinho em uma “kitinete”. Tinha um opala branco, “diplomata”, quatro portas, 1985, o qual ele apelidava de tempos em tempos com o nome de seus amores.Na época do ocorrido o apelido da “banheira” era Isabela...
Adalberto não tinha nada que de súbito chamasse a atenção, mas era bom de papo, desenvolveu aquilo que o dicionário define como um jeito de convencer, uma “lábia macia” e “melosa”, um diferencial, uma qualidade de nome complicado, uma tal “persuasão”... e aquilo parecia dar certo, extraordinariamente certo com as mulheres.
Adalberto era amado pelas mulheres.
Era um grande e bom amigo. E nunca o vi com mulher feia. Mas tinha certas manias. Uma delas era desaparecer por uns tempos para aparecer algum tempo depois. Mas Adalberto sempre voltava. E quando voltava era certo que trazia junto alguma beldade a lhe fazer carinhos.
Lembro nítido o dia em que me ligou depois de uns quatro meses de ausência.
Combinamos uma cerveja. Uma festa. Uma “balada”.
A noite quente e tranquila nos encontrou, eu mais dois amigos que aqui não cabe declinar nomes, sentados em um bar no centro da cidade. Bar este que lá pelas 00:00 do outro dia transforma-se, ou é transformado,em casa noturna com jeito de boate(antigo isso),
onde os fregueses da casa já bastante “altos do chão” largam-se em sapateados e rebolados. Dançarinas em devaneios e sem censuras. Boêmios de hálito etílico e equilíbrio duvidoso. Meninas já querendo ser mulheres e mulheres ainda querendo ser meninas etc...,etc..., etc, e talz
Mas voltemos à mesa.
Estava eu já na segunda cerveja e meus olhos vagavam solenes pelo ambiente, á procura de um olhar, um sorriso, uma “deixa”, um sentido para a vida, uma razão, um porquê. Quando ele entrou.
Imediato reconheci Adalberto e logo se renovou em mim os créditos às suas qualidades, pois à sua frente desfilava um corpo moreno. Bonita, dengosa, cherosa, gostosa.
Naquela noite não foi diferente.
Adalberto conduzia a sua frente algo “inacreditavelmente belo”, que deixava a mostra, pelo rasgo do vestido que subia bondoso em um dos lados até quase o meio das suas pernas, uma coxa branca e redonda que dependendo dos seus passos nos presenteava os olhos a delicada imagem de uma de suas pernas ora saindo,ora entrando em seu vestido, como a nos instigar a querer saber o que poderia haver um pouco mais além do que poderia nos deixar ver.
Já estive com mulheres bonitas, mas Isabela era “desconcertante”.
Trazia nos olhos a cor clara da esperança e no corpo a certeza nua da indecência.
Isabela falava, falava e quando falava não reclamava, apenas cantava e da sua voz poesias de amores perdidos se ouviam.
Tinha a pele macia e branca como a neve e o cabelo descia por seus ombros em uma negra cascata de rodamoinhos brilhamtes.
Eu fiquei a observá-la.
Simples mortal. Não vi muito. Isto era privilégio de Adalberto, mas por entre o decote profundo que mostrava o voluptuoso início redondo daquela parte do seu corpo que nos faz sentir vontade de ser de novo meninos, consegui ver em meu devaneio, que volitavam moléculas de um perfume feito há séculos, pelos deuses, para que Isabela ungisse seu corpo quando viesse nos visitar aqui na Terra.
Seu hálito doce encheu o ambiente com o perfume das flores e sua alegria era tal qual a das crianças e quando sorria da sua boca desprendia-se um riso quieto e largo como a estrada da vida que acendia em nós uma vontade de estar a seu lado só para vê-la sorrir.
Mas como tudo que é bom termina, ou melhor, tudo que não é nosso sempre vai embora. Arrastou-se a madrugada mansa e tranqüila para o seu final. Hora após hora, minuto após minuto. Até que Adalberto olhou o relógio. Pediu desculpas. Levantou-se e nos arrancou de perto a beleza das flores, para o final da sua noite. Para o deleite seu. Para os prazeres dos homens. Para os jogos da carne. Para a volúpia dos deuses. Para o epílogo da sedução. Para os prêmios dos que são... “persuasivos”.
Isabela levantou-se. Enganchou as mãos no pescoço do sortudo. Roçou propositadamente suas coxas nas do amado. Cochicou algo em seu ouvido. Comprimiu os seios nas costas do amante fazendo-os saltar aos olhos e à nossa imaginação. Soprou da boca, encaminhando com uma mão pequena e macia um ou dois beijos para os súditos que permaneceram “ajoelhados” a seus pés e foi embora, deixando para trás o cheiro doce do seu perfume, as fantasias dos que a desejaram, o sabor amargo do “jamais você a terá em seus braços”... e... na minha imaginação: a inquietante pergunta.

“Porque mulheres bonitas andam com homens feios?”


(Dirceu Fernandes da Silva)

Nenhum comentário:

Postar um comentário