31 de mar. de 2010

A PEDRA

O dia amanheceu cinzento, frio.
No ar milhões de gotas suspensas sufocavam a manhã abraçando a velha casa de paredes de tábua em completa cerração. Antes de sair da cama ele já tinha em mente o que faria ao raiar da aurora. Hoje iria ser diferente. Iria vencer o nevoeiro espesso. Correria mais que ele de maneira que ao se afastar da casa continuaria a vê-la, mesmo distante. Ah. Este amanhecer não seria igual aos outros. Ninguém iria correr mais do que ele. Nem mesmo aquele nevoeiro.
Assim decidido vestiu a velha calça de “brim coringa” azul. Colocou a camiseta de manga curta embaixo da jaqueta de lona bege forrada com pele de ovelha que ganhara do dono das terras onde moravam. Decidiu que apesar do frio não iria botar as botas de cano curto e solado de pneu. Sairia assim apesar das recomendações de sua mãe, pois logo seus pés iriam se acostumar. Ele sabia disso. Já tinha feito várias vezes. No frio intenso “pés de moleque” logo se acostumam e passados alguns instantes gelam ao toque e adquirem em seguida uma cor vermelho-rosada para depois perderam a sensibilidade. Mas isto ante a emoção de vencer o frio lá fora não era nada.
Foi quando ouviu a voz da mãe.
____Ei, aonde vai menino. Não esqueça que teu pai recomendou prestar atenção na vaca que está de cria nova. Se algo acontecer a ela talvez você se arrependa.
____Ora mãe. Nunca deixei de fazer o que ele me recomenda. Vou dar uma volta. Preciso pensar.
Saiu, caminhou alguns metros e olhou para trás. Até perceber que a casa começava a desaparecer na espessa cerração. Pensou em correr e por em prática o planejado ao acordar quando se deparou com ela de novo.
Lá estava. Um pouco diferente pela fraca claridade do começo da manhã. Mas sempre ela. Sua cor havia mudado na superfície devido à umidade do ar. Mas de resto continuava a mesma. “Imponente”, “orgulhosa”, “egoísta”. Desprovida de qualquer sentimento bom. Tranqüila na calma de seu tamanho colossal. Pronta para lhe ouvir de novo. Sem, no entanto demonstrar qualquer reação.
Sentou-se em cima dela até que os raios do sol esvaeceram por completo o cinza úmido da manhã e ali perdido prometeu a si mesmo que sairia daquele lugar. Que não morreria ali e tampouco ficaria conforme o desejo de seu pai. Prometeu que iria em busca de seus sonhos. Mudaria o curso de sua vida. Transformaria para sempre o destino de sua existência.
Foi quando sentiu que seus pés começaram a reclamar do frio.
Desceu da pedra.
Não queria mais pensar.
Pegou a estrada e correu. Correu muito. Correu até cansar-se de maneira que sua respiração ofegante o derrubou ao lado da estrada em cima do capim molhado.
Estava tomada a decisão.
Aguardaria a chance que a vida lhe oferecesse.
Mas ali ele não ficaria.
O tempo passou, por vezes incólume, às vezes impassivo, tantas outras difícil, vez por outra apreensivo, muitas tantas alegre, tantas outras tristonho, mas todas as vezes.... tempo.
E da infância sem nada pouca coisa ele guardou a não ser a promessa feita em cima da grande pedra.


(Dirceu Fernandes da Silva)


Ps: O Dirceu além de um excelente escritor,é o meu namorado,o meu amor...tenho mto orgulho dele...ainda vou postar mto mais coisas dele aqui...

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